A mais nova moda no empreendedorismo mundial é fazer um negócio com propósito. Eu acho sensacional esse conceito e levo isso para dentro da Kiwi Sucos Franchising com toda força. Luto para que a nossa essência apareça em todos os pontos de contato com clientes, franqueados e colaboradores da rede. Acredito que negócios eternos são baseados em uma essência forte e não apenas na venda de produtos. O problema é que as pessoas confundem e acabam enchendo o mundo de propósitos digamos… bizarros.
              Outro dia, vendo o Shark Tank americano, me deparei com apresentações de várias empresas com o tal “propósito”. Uma delas era uma startup que tinha como missão vender pijamas para ajudar um grupo de elefantes vietnamitas que passavam frio no inverno. Outra empresa doava parte dos seus lucros para promover a reprodução de lesmas venezuelanas que corriam risco de extinção. Vejo isso rolando no Brasil. A maioria das empresas quer carregar uma bandeira, mas 99,9% delas apenas o fazem para cumprir a tabela do politicamente correto e de uma cartilha virtual de empreendedorismo de palco (muitas vezes, gente que nunca teve um CNPJ, mas fala sobre empreender como ninguém).
              Não significa que essas causas não sejam válidas. Eu adoraria ajudar na migração das sardinhas da Patagônia, mas não vejo isso como um propósito realmente válido para mudar alguma coisa no mundo ou fazer uma empresa dar certo. A MISSÃO (o propósito de existir) da empresa tem que ser verdadeiro, correndo o risco de não vingar. Mas como eu acho o propósito da minha empresa? (você deve estar se perguntando)

Eu respondo: Encontre o seu propósito primeiro.
Como eu fiz para encontrar o meu? Senta que lá vem a história.

                Eu vivi minha infância no interior de Minas. Matozinhos (MG) é uma cidade tão pequena que até parece cenário de filme. A igreja, a praça, a estação de trem, a padaria e os mesmos personagens que passam todo dias, nos mesmos lugares, realizando as mesmas tarefas. O tempo lá não passa. Foi lá que fiz meus melhores e eternos amigos. A felicidade era pular de casa em casa, recrutando os amigos para brincar na rua, jogar bola, pegar passarinho na casa do Vô, nadar na casa dos amigos, pegar milho na plantação do vizinho, ouvir rock, gravar fita, tocar numa banda, andar de mountain bike, passear de moto com meu tio, se aventurar nas fazendas e grutas da região. A felicidade era simples. A felicidade era direta. A felicidade era o presente, não o futuro.
              Quando tinha 12 anos minha família mudou para BH. Foi um choque. Sai de uma escola pública (não existia escola particular em Matozinhos) para a escola mais elite da capital. Aquilo não era meu mundo. No início não entendia nem a língua que eles falavam (rs). Não tinha preparo nem maturidade pra lidar com aquela transição. Os colegas disputavam quem tinha a melhor nota, quem tinha o melhor brinquedo, quem tinha a melhor roupa, o melhor boné, o melhor tênis, a melhor mochila da Company. Você tinha que ser e ter o melhor. Disputar era a rotina. Enquanto eu queria saber quem sabia tocar um instrumento para fazer uma banda, eles queriam saber quando o novo Nike Air Max iria chegar em BH. Uma vez fiz uma arapuca no recreio e peguei uma pombinha. Fui aplaudido pela escola inteira. Acharam que eu era o Tarzan. Imagino que a maioria ali nunca tinha visto uma galinha na vida.
              Tinha entrado em uma cultura que não me pertencia. Tinha saído da pureza plena de uma pacata criança do interior de Minas, para uma cultura de competição, materialismo e relacionamentos frios. Infelizmente, essa cultura foi me moldando ao longo dos anos. Meu contato com o interior ia ficando cada vez mais distante e fui me tornando um cara da capital. Apesar da minha essência nunca ter se perdido (continuei curtindo rock, tocando, sendo humilde e simples), algo tinha ficado lá no passado. Eu vivia um excesso de futuro. A felicidade tinha deixado de ser o presente e passou a ser o “quando tal coisa acontecer, eu serei feliz.”. Eu seria feliz depois que passar no vestibular. Quando passei, a felicidade estava quando eu formasse. Quando formei, a felicidade estava quando terminasse a pós graduação. Eu precisava seguir o script que a sociedade criou para minha geração: Estudar, trabalhar, casar, fazer carreira, ter filhos e lá no final da vida…aposentar e aproveitar o resto do tempo para ser feliz (com alguém trocando sua fralda a cada 30 minutos).
              Esse excesso de futuro é matador. Gera um ciclo interminável e aniquilador em qualquer ser humano. É aí que a depressão e ansiedade bate forte. Fui percebendo que eu estava nesse ciclo no início dos anos 2000 e, embora tenha entendido isso relativamente cedo, já carregava as sequelas de alguns anos vivendo nesse modelo mental. Em 2006, enquanto avançava a faculdade de Direito (totalmente infeliz e perdido), resolvi dar um basta naquilo. Precisava parar tudo por um tempo, desacelerar, sumir do mundo e reencontrar minha felicidade. Qual era a minha Missão nessa passagem pela vida?
              Fui pra China em 2007. Vendi minha bateria, pedi dinheiro emprestado para minha mãe e irmão, coloquei a mochila nas costas e me lancei. No meio de infindáveis “você é louco”, “não tá batendo bem da cabeça”, entrei na jornada mais transformadora da minha vida. Precisava ir para o outro lado do mundo para me reencontrar. E foi mágico. Mágico de OZ! Rodei milhares de quilômetros, trabalhei, estudei, chorei, conheci lugares e pessoas. Me diverti. Vivi. Descobri. Aprendi. Resgatei minha essência e o meu propósito. E minha essência era tão óbvia. Estava na minha cara. Nunca saiu de dentro de mim. Ser feliz era simples demais. A simplicidade de saber que você é feliz hoje, não amanhã. Amanhã eu nem sei se vai chegar.
Meu propósito era ser feliz e inspirar pessoas a serem felizes também. Poderia inspirar pessoas com meu bom humor, proporcionando bons momentos, indicando um bom livro, fazendo parte de uma banda, dando conselhos, levando palavras de otimismo e fazendo com que as pessoas vejam sempre o lado positivo da vida. Quem sabe eu poderia fazer pessoas felizes criando um negócio para pessoas que tivessem esse mesmo propósito? Esse era eu, o tempo todo. Dali por diante eu só faria o que tivesse sentido para mim, independente do status ou resultado financeiro que isso me traria.
              E achar o sentido da vida é transformador. A medida que você se entende, começa a entender o outro. E começa a entender a sua Missão. E a sua Missão pode transformar a vida de muita gente. É sobre isso que estou dizendo nesse texto. Entenda sua missão na vida e transforme isso em um negócio, não o contrário. Encontrar (forçadamente) uma missão para empresa (Ex: salvar elefantes no Vietnã) para cumprir tabela e fazer um lindo Pitch não é verdadeiro. As pessoas podem até comprar no início, mas depois percebem que é fake. Cansei de ver pseudo-salvadores de animais na savana africana que chegam em casa e chutam o cachorro. Quer uma dica? Larga tudo e vá viajar por um tempo. Faça o exercício de se conhecer antes de tudo. Feito isso, siga o que você acredita. É libertador viver assim.

For those about to Rock, we salute you!

Dimitri