Qual a relação entre eles?

Um ponto fundamental sempre abordado nos consultórios de nutrição é a saúde intestinal. Aí você pode perguntar: mas o que isso tem a ver com alimentação e nutrição? Resposta: TUDO, absolutamente tudo.

Ao ingerir o alimento, a primeira etapa começa na boca com a mastigação (que deve ser bem feita). Há também o contato com algumas enzimas que vão começar o processo digestivo.  Seguindo essa parte mecânica de trituração, o alimento chega ao estômago onde vai receber ácidos para continuar a digestão. Depois ainda tem a ação de mais enzimas digestivas. A massa formada está pronta para ser absorvida. É agora que os nutrientes vão realmente entrar na corrente sanguínea e chegar às células. E essa passagem ocorre no intestino.

Se as etapas anteriores não forem bem feitas, todo o processo de absorção será prejudicado. Pensando sob esta perspectiva, comer bem, nem sempre é sinônimo de estar bem alimentado, caso os processos de digestão e absorção estejam comprometidos. Reforço a importância da primeira parte – mastigar bem o alimento. Nada de engolir e empurrar o alimento com líquidos. A etapa seguinte no estômago (que não tem dentes) vai ficar prejudicada. Faça seu time ganhar! Passe a bola redondinha pra marcar o gol!

Chegando no intestino, existem dois fatores a serem considerados: 1) A barreira intestinal e 2) As bactérias intestinais.

1)      A barreira formada pelas células intestinais deve estar íntegra, com uma célula bem juntinha à outra. Os nutrientes digeridos devem entrar pelo alto da célula, atravessá-la e sair pela base, chegando à corrente sanguínea. Mas se o intestino não estiver íntegro, essa passagem pode ocorrer por entre as células e isso não é nada bom, pois dá início a um processo inflamatório.

2)      Os nutrientes que chegam ao intestino entram em contato também com um pelotão de bactérias que habitam nosso corpo. São trilhões de microorganismos, que denominamos microbiota (antes chamada “flora” bacteriana). Essas bactérias também aproveitam esse alimento e, a partir dele, geram produtos que podem ser benéficos ou não para nosso organismo. Isso vai depender muito da qualidade da população de microorganismos que habitam nosso intestino – se são bactérias probióticas (benéficas) ou patogênicas (que podem causar doenças).

 

Mas por que falar de tudo isso?

 

Porque o que comemos está diretamente relacionado com essa população de bactérias e com a integridade da mucosa intestinal (células bem juntinhas lembra?). As bactérias patogênicas atrapalham essa integridade entre as células, gerando permeabilidade.  Por isso, a composição da microbiota intestinal é essencial para a saúde e ao bem-estar do ser humano.

Então, temos que pensar em ter uma boa população de bactérias probióticas. Isso começa desde o nascimento e pode ser melhorado com intervenções nutricionais.

E como manter essa boa população?

Aí entram em cena os PREBIÓTICOS – espécie de alimento para as bactérias PROBIÓTICAS.

Uma fonte de prebiótico é o amido resistente. Vamos entender o que é isso.

Amido é um carboidrato (já falamos dos macronutrientes em um post anterior).

Resistente significa que ele não é digerido nem absorvido pelo nosso corpo. Ele RESISTE a esse processo.

Por não ser absorvido através das células do intestino, esse amido fica em contato com as bactérias benéficas que vão fermentá-lo gerando ótimos produtos para nossa saúde. De acordo com artigo de  Karla Pereira ¹, essa fermentação, inclusive, ajuda a inibir o crescimento de células cancerígenas no intestino grosso – isso não é fantástico?

Outros estudos têm mostrado a ação do amido resistente na redução de doenças inflamatórias e até de distúrbios do sistema nervosos como ansiedade e depressão ²³.

 

Ok, mas onde encontrar esse alimento tão incrível?

O amido resistente é um componente natural da dieta encontrado em vários alimentos.

A banana verde é um ótimo exemplo. A partir dela foram desenvolvidos produtos, dentre eles, a biomassa de banana verde – uma maneira fácil de incluir o amido resistente na nossa alimentação. A biomassa pode ser usada de várias maneiras:

– nos sucos e vitaminas (não altera o gosto);

– engrossando sopas, caldos, caldo de feijão, molhos e até o estrogonofe;

– nas massas de tortas e pizzas;

– em patês e pastas;

– em mousses e receitas doces – brigadeiro, brownie, bolos, etc.;

– e onde mais sua criatividade culinária permitir…

A biomassa pode ser encontrada pronta para comprar, mas também pode ser feita em casa. Vou deixar uma receita no fim deste post.

 

Agora podemos responder a pergunta que deixei no título: Biomassa de banana verde – intestino – saúde. Qual a relação entre eles?

A biomassa de banana verde – um amido resistente – faz bem à saúde das bactérias probióticas.

Isso tem impacto positivo no intestino. Boa saúde intestinal está relacionada com o fortalecimento do sistema imune, a regulação do intestino e a melhora da absorção de muitos nutrientes da alimentação.

Portanto, se nosso intestino exerce funções tão vitais, o que faz bem a ele, faz bem à nossa saúde como um todo!!!

Então a partir de hoje inclua fontes de amido resistente na sua alimentação. E lembre-se sempre que através do alimento podemos ajudar a promover nossa saúde e afastar o risco de doenças.

Até a próxima.

SAÚDE SEMPRE!!!

 

Márcia Hermeto – Nutricionista (CRN 12939)

 

COMO FAZER A BIOMASSA DE BANANA VERDE:

Ingredientes:

  •         Cerca de meia panela de água (a quantidade suficiente para cobrir as bananas)
  •         bananas verdes (preferir orgânicas)

Modo de fazer:

Lave as bananas verdes sem tirar o cabo da fruta. Encha a panela de pressão com metade de água e leve ao fogo para esquentar. Quando a água estiver borbulhando, coloque as bananas e tampe a panela. Espere chiar por 10 minutos e deixe a pressão passar naturalmente.

Retire as bananas da panela e descasque. Cuidado ao abrir as bananas, para não se queimar. Se preferir, utilize um garfo. Coloque a polpa da fruta – sem as cascas – para bater no liquidificador (pode ser necessário um pouco de água fervente). Está pronto. Você pode colocar a mistura em fôrmas de gelo e vai utilizando os cubinhos nas preparações. Quando for usar, retire do congelador no dia anterior e coloque na geladeira, ou coloque no microondas, em um pote de vidro, por 1 minuto.

 

Referências:

1 – PEREIRA, Karla Dellanoce. Amido resistente, a última geração no controle de energia e digestão saudável. Ciênc. Tecnol. Aliment., Campinas, 27(supl.): 88-92, ago. 2007. 

2 – Upadhyaya B, McCormack L, Fardin-Kia AR, et al. Impact of dietary resistant starch type 4 on human gut microbiota and immunometabolic functions. Scientific Reports. 2016;6:28797. doi:10.1038/srep28797.

3 – Lyte M, Chapel A, Lyte JM, Ai Y, Proctor A, et al. (2016) Resistant Starch Alters the Microbiota-Gut Brain Axis: Implications for Dietary Modulation of Behavior. PLOS ONE 11(1): e0146406.